7 de fevereiro de 2010

Não basta ser pais para saber como educar



Educar um filho é talvez o primeiro desafio dos pais quando uma criança nasce. Com a constante mudança de valores da família e do comportamento dos pequenos, fica difícil saber como lidar com a culpa dos pais, o afeto e a rebeldia da gurizada. Psiquiatra e educador, Içami Tiba concedeu entrevista que reproduzimos abaixo.

Jornal Zero Hora - Por que a transição da infância para a adolescência é tão difícil para os pais?

Içami Tiba - Os filhos ficam independentes e começam a fazer as coisas sem eles. Os pais que não estão preparados para uma educação verdadeira, por falta de informação. Educação é tornar os pais desnecessários. Aí o pai e a mãe ficam com a sensação de só financiar e não curtir essa fase com eles. É uma geração de pais perdidos. Não basta se tornar pai para saber como educar. Eles têm de se informar sobre educação. Não adianta culpar os hormônios dos filhos pelo caos. Os pais querem tratar o filho da mesma forma que há cinco anos. Não dá. Eles já não são as mesmas pessoas.

Jornal Zero Hora - É preciso reinventar a identidade paterna?

Içami Tiba - Não é reinventar. É aprender. Filho não é prolongamento dos pais. Filhos são pessoas com vida própria. E o pai tem de respeitar isso e orientar. Tem de cobrar boa nota, organização, colaboração. Sem negociar. Isso é obrigação dos filhos. Os pais querem que os filhos tornem-se grandes homens, mas que alicerces eles dão? E não é mandando. O "quem manda aqui sou eu" não cola.

Jornal Zero Hora - Os pais pecam mais pelo excesso ou pela falta?

Içami Tiba - Os dois. Beiram quase a negligência: o não fazer por não conhecer. Não é chefiar os filhos, é liderar. Tem de delegar função para o adolescente. Eles precisam sentir a responsabilidade, a confiança de que vão cumprir o combinado. Não é porque tem empregada que não precisa arrumar o quarto - porque, no dia que a empregada falta, é a mãe quem vai arrumar. O que ele aprende com isso? Se não arruma o quarto, não ganha a chave do quarto. Isso é amor, é educação.

Jornal Zero Hora - A fama de super-proteção das mães é justa?

Içami Tiba - A mãe tem de saber que a sua melhor função na vida, que é se tornar inútil na vida do filho. Os tempos são outros, não se pode transformar o filho em um herdeiro que espera a mãe fazer tudo por ele. Que segurança em si esse jovem vai ter? O jovem inseguro se deixa viciar: por drogas, por internet, por televisão.

Jornal Zero Hora - Por que existe tanta dificuldade em se ter uma comunicação eficaz com os filhos?

Içami Tiba - Os jovens são de outra geração. Os pais têm de se tornar interessantes, têm de conversar com o filho como se fosse um happy hour. Falar da vida, contar casos engraçados. O pai que chega em casa sempre mal-humorado e monopoliza o controle remoto não pode querer que o filho goste de conversar com ele. Essa empatia abre o canal para a comunicação.

Jornal Zero Hora - Há receita para as conversas sérias?

Içami Tiba - É só falar com sinceridade e sem rodeios. O assunto drogas, por exemplo. Tem de ter conversa, mas, sobretudo, ação. Muita gente educa o filho para que use drogas. A vida inteira deixaram o filho fazer o que achava bom, o que lhe dava prazer. O filho não queria estudar porque não achava gostoso. Só queria comer porcarias porque é mais gostoso. Como você espera que ele negue drogas se o critério é o prazer e não o que é certo?


Tarefa de casa!
  • Comunique-se positivamente. Ninguém gosta de ser avaliado constantemente.
  • Use afirmações reflexivas e solidárias.
  • Ajude o adolescente a explorar as alternativas.
  • Adolescente deve ter deveres, que não devem ser premiados quando cumpridos. São obrigações, não favores.
  • Converse sobre trivialidades, compartilhe experiências.
  • Cumpra o combinado.
  • Estimule-os a se sentirem úteis. Delegue funções.
  • Estudar é obrigação. Se vai mal na escola, perde todas as regalias.
  • Não deprecie o adolescente. Elogie sempre que uma boa oportunidade aparecer.
  • Adolescentes e pais aprendem os hábitos de cada um.
  • 0 pai superprotetor diminui as oportunidades de aprendizagem do filho.


Amar é educar para a vida



Ter filhos é uma maravilha, mas é preciso impor limites para criar cidadãos preparados para o mundo

Hora do jantar, a mesa está posta. A mãe, que chegou do trabalho correndo, quer reunir a família para um bate-papo durante o jantar e espera o marido e os dois filhos adolescentes. 0 único que não atende ao convite é o filho mais velho, pois está conversando com os amigos pelo computador. A família cede, contrariada. 0 que poderia ter sido uma reunião de família, talvez a única do dia, ficou adiada por um mero capricho do filho mais velho. Ou teria sido por falta de atitude dos pais?

Atirem a primeira pedra os pais que nunca se viram diante de uma situação conflituosa com os filhos (de qualquer idade, diga-se de passagem!) sem saber que atitude tomar. A situação é corriqueira e faz parte do paraíso e do calvário que é educar os filhos. A Revista Varando conversou com o psiquiatra e educador especializado em adolescentes Içami Tiba, 65 anos. Em 39 anos de carreira, Tiba é autor de 16 livros sobre as relações de família, faz palestras por todo o Brasil e outros países e apresenta o programa Quem Ama, Educa!, na Rede Vida. 0 tema é polêmico e não se esgota em algumas páginas, mas a seguinte entrevista pode ajudar você a ver com outros olhos a relação entre pais e filhos.

Como surgiu o interesse pelos adolescentes?
Quando eu estava na faculdade de medicina, o que eu aprendia sobre adolescentes não tinha a ver comigo. Eu achava que tudo o que se dizia era muito diferente daquilo que eu tinha vivido. Quando resolvi fazer psiquiatria, já tinha um foco, que era trabalhar com adolescentes. Na época, há 39 anos, o Departamento Infantil do Hospital das Clínicas internava pessoas de 1 a 18 anos. Não havia um trabalho direcionado para os adolescentes. Então, à medida que comecei a estudar, estruturei uma teoria de desenvolvimento e, a partir de então, criou-se o Departamento de Adolescentes no Hospital das Clínicas. A teoria foi facilmente aceita pelo meio médico-psicológico na época, pois o modelo existente tratava o adolescente como um futuro adulto e uma ex-criança. 0 que eu fiz foi dar existência própria para ele

Hoje o seu nome é referência quando o assunto é adolescência. Como as coisas evoluíram até esse ponto?
As escolas começaram a me chamar para explicar para os professores a minha teoria de desenvolvimento. Então, comecei a fazer palestras e escrever livros. Por fim, depois de 22 anos de vida acadêmica, resolvi deixar a formação aos especialistas para atender a base, ou seja, as famílias. Em vez de ser mais uma lâmpada, preferi levar uma vela na escuridão. Possibilitar às famílias educar melhor seus filhos de modo que eles crescessem mais felizes e competentes. Os filhos têm tudo, são perdoados e providos. Mas, no fundo, eles não têm educação e, muitas vezes, não são felizes.

Existe uma receita para educar os filhos e fazê-los felizes?
Os pais precisam se atualizar e não ficar tentando usar martelo para consertar computador. Porque a cabeça da criançada hoje funciona como um computador. O que eu quero dizer é que os recursos que os pais têm funcionam como um martelo para a cabeça das crianças e dos jovens de hoje. As famílias precisam formar muito mais cidadãos éticos do que filhos. Nenhuma empresa quer em seu quadro de funcionários alguém que funcione como filho. Temos de capacitá-los de uma maneira ética, para não serem espertinhos, ou querer tirar vantagem do poder que tiverem nas mãos no futuro. Isso é cidadania familiar

0 que fazer quando o filho pequeno faz birra?
Está fora de cogitação dar tapa em criança, perder a calma e gritar, repetir mil vezes a mesma coisa. Eles aprendem com muita facilidade. Explique a primeira vez e, na segunda, ele tem que fazer. Se não fizer, vai perder alguma coisa. A criança que aprende é mais eficiente, começa a tomar conta das suas próprias coisas, respeita as dos outros e percebe o benefício de manter qualquer brinquedo em ordem. Com isso, começa a respeitar mãe e pai e todo mundo ao seu redor. Agora, na medida em que a família se submete às suas vontades, autoriza a criança a fazer dessa vontade uma realidade. Isso é falso. Se em casa não se faz o que não se pode fazer na sociedade, eleja vai crescer com espírito cidadão. Nunca vi alguém ganhar um aumento ou conquistar um emprego fazendo birra. Entrou na faculdade e ganhou um carro, largou a faculdade e continuou com o carro. Não é assim que as coisas funcionam.

Qual a importância da familia na formação dos filhos? 
É muito grande. Não é obrigatório que seja pai e mãe. 0 modelo de família mudou. Os papéis mudaram. 0 que não pode é o ex-marido virar ex-pai. Existem novas constituições familiares que favorecem desde cedo trabalhar contra o preconceito dentro de casa. As situações de diferença na família podem ser usadas em benefício da cidadania. 0 cidadão vai conviver com o diferente. Ele não tem que obedecer só ao chefe dele, mas a uma regra geral. 0 fato de não-irmãos conviverem favorece o que eu chamo de liderança compartilhada. 0 adulto (o pai) é o chefe. Mas naquele momento em que o filho entende mais de computador do que o pai, ele vai explicar para o pai e para os outros membros da família aquilo em que ele é mais competente. Ainda bem que a gente tem cinco dedos e cada dedo é diferente do outro. Imagine se tivéssemos cinco polegares? A família é uma equipe e todos têm uma função.

Amar demais estraga?
Não. Quem ama, educa. Você pode amar demais, mas tem que exigir. Erramos quando usamos amor tolerante. Porque eu amo, eu tolero. Está errado. Justamente porque se ama, tem que exigir que se faça o melhor. Isso não é disciplina. É só uma questão de posicionamento na vida. Quando nasce, a criança ganha amor gratuito do pai, da mãe, dos adultos que estão à sua volta. Quando começa a crescer, ganha o amor que ensina. Em muitos casos, o filho sabe que não precisa fazer o que se pede a ele. Ele vai ouvir uma ladainha e acaba a história. Nessa hora, é preciso o amor que exige. Que se faça o que aprendeu. Se a criança aprendeu que tem que guardar o brinquedo, ela tem que guardar. É equivocado pensar que quando a criança parou de brincar acabou a brincadeira. A brincadeira acaba quando ela deixa o lugar em ordem.

É possível ser pai e amigo?
Não. Pai é pai. Amigo é amigo. Amigo o filho escolhe. Não tem essa de pai que é amigo. Amigos são importantes, mas não valem mais do que pais. Não estou desconsiderando a figura do amigo, mas são funções diferentes. Se o pai é amigo e o filho vai fumar maconha, o pai vai junto? 0 pai é modelo para o filho, é aquele que, quando o filho precisa, está lá para socorrer. 0 filho sabe que essa aproximação é equivocada. 0 amigo vive dando bronca? Na maioria das vezes, o amigo participa, esconde as coisas que ele faz. E o pai, quando não gosta das coisas, dá bronca, e quando é conveniente, diz ser amigo. Que história é essa?

0 filho reconhece nessa autoridade dos pais uma referência?
Todos os filhos tomam como base o comportamento dos pais. Quanto mais amadurecido ele for, tanto mais ele vai entender o que os pais fazem. Mas para entender de fato os pais, melhor ser pai também. Por essa razão, os filhos que são pais são ótimos filhos, muito melhor do que os solteiros. Depois que fui pai, passei a entender o que o meu pai dizia.

Como lidar com as drogas? 
Os pais que fazem tudo para o prazer do filho estão equivocados, pois ele se acostuma com o prazer e pensa que tudo se justifica. Eu aprendi isso conversando com pessoas que usam drogas. Você fuma maconha? Fumo. Por que você fuma maconha? Porque é bom. Por que é bom? Porque é gostoso. Por que dá prazer é bom?Isso é um erro. Mas é o que eles falam, pois foi assim que aprenderam.

Tem que pegar no pé o tempo todo? 
Não é o tempo todo. Basta os pais serem coerentes. Eles têm que pegar no pé o tempo todo se o filho não fez o que tinha que fazer. Eu não preciso ficar nervoso todas as vezes que volto para casa e vejo que o meu filho não guardou o brinquedo. Se ele aprendeu e guardou, acabou o problema. Quanto melhor o filho for educado, menos problemas os pais vão ter e vice-versa.

0 Sr. aplicou sua teoria com seus filhos? 
Tenho três filhos, um genro, uma nora e dois netos. Aprendi com eles muitas coisas. Felizmente não tive grandes problemas, pois minha mulher é uma excelente educadora.

Os filhos são perversos?
Não. Eles vão lutar com as armas que têm, sabendo que os pais cedem. Eles não são perversos, os pais é que são moles. É diferente. Criança não é cruel. Se os adultos não assumirem o comando, elas serão arredias. O capitão do navio tem que liderar a embarcação. Os pais como ele, devem manter o rumo.

A receita é ter bom senso? 
Creio que experiência. Tem gente que pensa que tem bom senso: dá algo para um filho e ao outro também para que ele não fique traumatizado. Está errado. Não existe país no mundo que promova um aluno que não estude. Nenhuma empresa quer no seu quadro de funcionários alguém que tenha espírito de aluno. Estamos educando mal e ensinando mal. Por que não queremos um profissional com espírito de aluno? Porque ele só trabalha no dia do pagamento. Só estuda no dia da prova.

0 que fazer quando a criança não obedece?
Tem que falar uma vez só: "Se você brincar agora, vai perder o privilégio. Agora chega, você vai fazer o que precisa fazer: estudar, escovar os dentes, dormir". Não tem essa de faço e não acontece nada. É preciso que haja conseqüência para tudo o que a criança faz. Esse é o princípio básico de toda educação. Se a criança bate na outra, não tem como tirar a dor da outra. Mas aquele que bateu pode fazer o curativo em quem bateu. Da próxima vez, se bater de novo, vai fazer outro curativo. Se quebrou uma coisa, trate de arrumar o que quebrou. Não é o pai que vai arrumar. Em uma pesquisa feita recentemente e apresentada em um congresso de professores, revelou-se que 25% das agressões sofridas pelos professores vinham dos pais. Que tipo de educação esses pais estão dando para os filhos? A educação tem que ser um projeto racional e não emocional. 0 pai tem o poder de mudar o futuro do Brasil, preparando o filho para receber o pais que estamos deixando para ele.

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